Eu tava sentado no banco imundo da praça. Aquelas pombas fazendo os barulhos estranhos com umas velhinhas que achavam engraçado aqueles bichos comerem. Euforia ridiculamente velha e estúpida. Tinha acabado de perder meu ex-maldito emprego. E o sol estava torrando a minha testa. Eu escutava o barulho dos carros e me lembrava de como havia sido tolo ao acreditar que a minha ex-esposa iria querer um divórcio fácil.
E agora, lá estava eu, num banco imundo, com a testa torrada, o cigarro aceso na mão, desempregado e sem um tostão no bolso. O advogado dela não deu a menor chance. Eu era um vagabundo. Teria sorte se quando voltasse para casa ela ainda estivesse lá. E com toda essa violência teria sorte se conseguisse voltar. Caminhei pela praça torcendo para nenhuma pomba fazer merda na minha cabeça. Fui para onde havia estacionado o carro e ele não estava lá. Ou roubaram ou guincharam. Não seria a primeira vez que aconteceria. Esse mundo estava sem juízo, sem jeito, sem coragem. Eu mesmo estava sem juízo perfeito, sem jeito e coragem de seguir a vida em frente, e isso não é algo que se encontre na feira para comprar. E assim, eu entendia aquele patético pequeno mundo.
Peguei o ônibus. Lotado. Só tinha gente emburrada, feia, cansada e suada. Era reclamação para todos os lados: " o governo isso...", "meu salário aquilo...", "imposto daquele...", "filhos que fazem disso...". Pessoas arrogantes. Ao menos vocês tem do que derramar. Acabei de usar provavelmente os últimos centavos para subir naquele ônibus e estava indo para uma casa que eu não sabia até quando seria minha. Ora, e nem era motivo para me olhar torto só porque eu estava de terno num ônibus cheio de gente fedida, cansada no final do dia. Cansada da semana. A maioria escolhe a sexta-feira para demitir os funcionários. Ainda não entendi o porque. Mas até onde sei todo mundo sabe...
Aquele ônibus era um sobe e desce medonho. Um para e arranca dos deuses. Deus me acuda se eu conseguir chegar em casa ainda hoje. Com todo esse para e vai, deve estar poluindo três planetas Terra. Não me admira que eu ainda esteja vivo, se estivesse lá fora estaria respirando a fumaça desse ônibus velho e o cheiro dessa gente cansada. É... Se eu estivesse lá fora agora, seria um moribundo, divorciado, desempregado cheirando fumaça e gente.
Estaria melhor se tivesse um cão. Mas ainda teria que limpar as merdas que ele faz, e ter que comprar comida. E se eu não tivesse desempregado, deixaria de fazer mais coisas para comprar coisas para o maldito cachorro que graças a Deus eu não tenho. Ração, é vacina, mais ração, vacina, móveis e sapatos destroçados. E com esses impostos...
Então, seria melhor ter um filho. Não, não seria. Mas eu primeiro teria que ter uma mulher, que agora, não tenho. Uma casa, que não sei até quando será minha. E se eu tivesse um filho gastaria muito dinheiro com ele e com a maldita da minha ex-esposa que me levou tudo o que tenho. E então, estaria lá fora sendo um vagabundo, desempregado, divorciado pai de um filho sem um puto no bolso cheirando a fumaça nojenta desse maldito ônibus.
Acho que seria bom eu viajar. Mas se eu tivesse dinheiro, porque estou desempregado e minha ex-esposa vai levar até o que eu não tenho. Não tenho um puto no bolso nem para mais um passagem num maldito ônibus.
Acho que então eu deveria morar com meus pais. Mas se eu morasse com eles teria que dar satisfações novamente e explicar porque a minha ex-esposa me deixou e porque meu chefe me despediu numa sexta feira e porque cargas não achei meu carro para voltar para casa. Isso se eu ainda tiver casa.
Acho que vou me matar... Aí sim, se eu me matar talvez eu ainda descole o meu seguro de vida. Ah, mas não! Minha ex-esposa vai ficar com ele. Vai curtir minha grana com o sacana do meu chefe e resmungar para ele que eu era muito resmungão e pessimista.
Nunca tive sorte com as mulheres, elas sempre achavam que eu reclamava demais. Mas eu não reclamo... Só falo a verdade, eu nunca tive sorte com uma mulher que me amasse de verdade. Mas se eu tivesse tido a sorte estaria muito mais ferrado do que agora, porque estaria sem dinheiro, sem carro, mulher, casa e sem vontade de fazer nada. Com provavelmente um cão e um filho babando nas minhas coxas e sem um lugar para ficar.
Acho que prefiro ficar na merda sozinho do que estar na merda com uma mulher como a minha péssima ex-esposa. Porque é óbvio, que eu não acho defeito em nada e não reclamo da minha ridícula pequena, falha vida.
É isso... fico nessa merda sozinho.